A importância da qualidade interna

A primeira vez que percebi o quanto a qualidade interna é importante, foi quando li o livro Scrum e XP direto das Trincheiras. Nele o Henrik Kniberg destaca que a qualidade interna do sistema é mais importante que a qualidade externa, tanto que ela é de responsabilidade da equipe e nunca (quase nunca) negocíavel com os clientes. E realmente é difícil discordar, uma vez que a qualidade interna irá acabar refletindo na qualidade externa do sistema, tanto que segundo o próprio Henrik: “[…] um sistema com baixa qualidade interna raramente terá uma qualidade externa alta.”

Mas qual a diferença entre qualidade interna e externa?

Em suma, qualidade interna é o sistema visto da perspectiva técnica, enquanto a qualidade externa é a visão do sistema, da perspectiva funcional.

Uma analogia seria a de uma montagem de um computador, você pode montar um computador com peças de vários fabricantes, e para o usuário pouco importará se a placa mãe é uma Asus, ou uma PCChips. O que o usuário verá será a qualidade externa, se o gabinete tem um design atraente se o computador não trava, essas coisas. Ele pouco irá importar se a memória RAM é Kingston ou não. O que importa na perspectiva funcional é realmente o funcionamento do computador e não como ele foi montado.

O que ocorre muito, é que há uma forte tendência no desenvolvimento do sistema ser guiado pelo “funcionou”, sendo que o “funcionou” pode ser um estado ainda crú da implementação da funcionalidade.

Monalisa

Citei a Monalisa no post anterior, desta vez ela será útil para nós, para entender como o processo de desenvolvimento de um software, é muito mais próximo do processo de pintura de um quadro, do que de um processo de construção civil.

Pesquisando na Internet encontrei informações de que a Monalisa foi pintada entre 1503-1514. Nesse período de mais de 10 anos, boa parte do tempo investido no quadro, foi em alterações técnicas, a base sempre foi permanecida.

Em outras palavras, podemos dizer que Leonardo Da Vinci levou 11 anos para finalizar o seu projeto, e boa parte do tempo, foi investido na manutenção do quadro, realizando refatorações e correções de bugs.

Uma característica que suponho que seja comum no processo de pintura de um quadro, principalmente quando ele é uma demanda, é a mudança constante. E mudança é uma das poucas certezas que temos no desenvolvimento de software, afinal um bom software está “sempre” em constante evolução/melhoria e quanto mais fácil for inserir mudanças no software, melhor será.

Mudar software é mais difícil do que mudar hardware

Vamos fazer uma breve viagem no tempo, o ano é 1946 e você está de frente ao ENIAC (foto abaixo). Se você perguntar para a pessoa na foto: o que é mais fácil mudar, o hardware ou o software? Ele com certeza, irá responder que é o hardware, e ainda irá achar a sua pergunta estúpida.

Agora voltando a 2010. O que é mais difícil, mudar o software ou o hardware?

Não há dúvidas que o software, não é? Hoje obter harware é MUITO fácil e barato, comparado a 1946. E com as VPSs da vida, ficou fácil obter hardware e uma ótima infraestrutura, você nem precisa sair de casa para ter o seu servidor rodando.

Monalisa, ENIAC, computação em nuvem e qualidade interna

Onde eu quero chegar com tudo isso?

Acredito que ficou claro que um dos grandes desafios para se desenvolver um software é conseguir mudar ele com o menor esforço necessário, mantendo o seu bom funcionamento. Costumo até dizer, que desenvolver software é fácil, comparado a manter o software.

Mas eu estou errado, pois desenvolver o software deveria ser mais difícil do que manter ele. Porém, seja por motivos externos (mudança frequente/drásticas de funcionalidades pelo cliente) e/ou motivos internos (pouca cobertura de testes, design fraco, falhas de comunicação, etc), manter o software acabou se tornando um tarefa mais difícil, do que a criação dele.

Voltando ao exemplo da Monalisa, vimos que Leonardo Da Vinci passou boa parte do tempo fazendo correções e melhorias no quadro, porém a sua essência foi mantida. Supunho que ele tenha feito um bom “design”, que permitiu inserir as correções e melhorias sem ter enfrentado maiores problemas.

O caso do ENIAC é interessante, pois mostra como as coisas mudaram MUITO do início da computação até hoje. Naquela época, e por um bom tempo, o hardware era o mais valorizado. Já hoje o software passou a ser o mais valorizado. E se antes os softwares eram escritos em cartões perfurados e pouquíssimas pessoas eram capazes de desenvolver software, hoje escrevemos software em linguagens quase naturais e conseguimos aprender a “desenvolver” por meio da Internet e de graça.

E a qualidade interna é peça fundamental para podermos conseguir alterar o código de forma “indolor”. E essa é apenas uma das vantagens que desenvolver software com uma boa qualidade interna traz. E vamos concentrar nela no próximo tópico.

Qualidade Interna

Qualidade interna também poderia ser traduzida em “fazer a coisa da forma certa”. Porém, essa tradução é muito simples e faz parecer que obter qualidade interna é fácil. Afinal seria só saber como fazer a “coisa” da forma certa, não é mesmo?

No entanto, há várias formas de fazer da forma certa no mundo do desenvolvimento de software. Por isso, uma das tarefas do desenvolvedor é fazer escolhas, e serão essas escolhas que irão influenciar diretamente a qualidade interna do software.

Os retornos com o investimento em qualidade interna ocorrem a médio e longo prazo, por causa disso, muitos acabam fazendo as escolhas “certas” a curto prazo, mas esquecem de avaliar o impacto que elas terão a médio e longo prazo.

E uma vez que escolhemos o caminho mais fácil, por exemplo adicionar mais um if, para atender uma alteração que o cliente pediu, ao invés, de extrair o comportamento para outro método, a tendência é acabar sempre escolhendo o caminho mais fácil.

Esse hábito, acaba sendo passado para os outros é acaba virando uma “cultura”. E aí, o caminho fácil será sempre tomado, e a possibilidade de tomar outras direções poderá nem passar pela cabeça mais. Sendo que essas direções diferentes, muitas vezes não representam um caminho difícil (ex.: escrever testes unitários), mas a mudança em si, é a parte difícil.

Desta forma, a qualidade interna acaba sendo colocada de escanteio. Porém, ao longo do desenvolvimento irão aparecer os sinais de que ela está muito baixa. Por exemplo: lançar uma nova versão demora cada vez mais tempo.

Como Obter Qualidade Interna

Algumas ações podem ajudar a desenvolvermos um software com uma boa qualidade interna:

  • Refatoração: alterar o código sem alterar o seu comportamento, focando na melhoria do código para favorecer a manutenibilidade dele;
  • Conhecer e utilizar boas práticas: princípios como o SOLID, ajudam a resolver os problemas com menos ruído e com soluções que favorecem a manutenção do software;
  • Comunicação: uma boa comunicação é essencial para o desenvolvimento do software, tanto externa (cliente), como interna (equipe). Muitos bugs acabam sendo inseridos e códigos duplicados, simplesmente porque houve falha na comunicação;
  • Estressar as soluções: geralmente, costumamos implementar a primeira solução que nos vem na cabeça, porém esquecemos que a primeira solução costuma não ser a melhor, por isso é importante pensar em outras formas de solucionar o mesmo problema e/ou conversar com alguém sobre;
  • Aprendizado contínuo: é importante estar sempre nos aperfeiçoando, se você for olhar algo que fez há 6 meses atrás e achou que não tem nada a ser melhorado, é sinal que você não aprendeu muito nos últimos 6 meses;
  • Saber quando parar: saber o momento de parar de ficar refatorando o código, é tão importante quanto saber quando é preciso melhorar ele, objetive a perfeição, mas não fique cego por ela;
  • Valorize o seu tempo: a vida é muito curta para ficar gastando tempo tentando entender aquele método com mais de 30 linhas que você escreveu há 3 meses atrás, ou ficar corrigindo bugs que poderiam ter sido encontrados antes com testes. Só nestes momentos, que você realmente percebe, o quanto a qualidade interna é importante;
  • Testes: por último e não menos importante, escreva testes. Além deles auxiliarem você a pensar melhor sobre as funcionalidades (se você usar TDD), eles irão te dá a tranquilidade necessária para refatorar o código. Afinal, refatorar sem testes, é algo muito difícil e arriscado, e isso incentiva a não refatoração e por consequência a uma baixa qualidade interna, portanto, escrever testes é fundamental para obter uma boa qualidade interna.

Conclusão

Enquanto a qualidade externa é a percepção do cliente para o software, a interna é a percepção dos desenvolvedores em relação a ele.

Devemos nos preocupar em manter uma boa qualidade interna, pois ela é essencial para a manutenção do software, e em cenários onde há entrega contínua do software (ex.: SaaS), a qualidade interna acabará sendo uma diferença competitiva. Afinal, uma das únicas certezas que temos no desenvolvimento de software, é que haverá mudanças, portanto, conseguindo reagir à tempo a elas, é fundamental para conseguir atender as demandas.

Os testes mais uma vez, representam um papel importante, pois é através deles que teremos a segurança necessária para refatorar o nosso código, implementar as alterações e novas funcionalidades.

Como anda a qualidade interna dos projetos que você está participando? A equipe tem consciência da sua importância?

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Você precisa de Agile?

Parece que de repente, “todo mundo” começou a buscar ser ágil.

A primeira vista isso pode até ser visto como bom, uma vez que vários métodos ágeis são bem mais sensatos do que os métodos tradicionais. Porém, infelizmente, muitos estão apenas indo na “onda do Agile”, e esses correm um alto risco de morrer na praia.

Por experiência própria, posso dizer que Agile não é pra qualquer empresa/equipe.

E dentre as várias coisas que aprendi (a duras penas), foi que nem sempre precisamos de Agile, ou melhor, nem sempre o que mais precisamos é Agile.

Para ilustrar esse aprendizado, vou utilizar o exemplo da famosa XPTO Solutions.

A XPTO Solutions também conheceu o Agile, por meio de materiais de terceiro é claro (uma dica: busque primeiro o conhecimento da fonte original). E após ver que os seus concorrentes já estavam utilizando métodos ágeis, decidiu adotar também. E como a maioria, começou com Scrum.

No começo tudo parecia uma maravilha, vários post-its coloridos na parede, o gráfico burn-down correndo bem, etc. Porém, após algumas sprints, percebeu-se que tinham finalizados várias funcionalidades, porém nada tinha ido para a produção, e nem o cliente tinha visto o software que estava sendo desenvolvido, pois estava distante, e o máximo de participação que ele tinha na sprint, era feita por e-mail ou telefone com o Scrum Master.

Outro problema que apareceu, foi que muitas tarefas eram retrabalhos e resoluções de bugs, pois eles não faziam testes unitários e 70% dos desenvolvedores ainda eram juniores, e não conheciam práticas como TDD e ainda não tinham uma base sólida na linguagem de programação que é usada na XPTO.

O problemas que aconteceram na XPTO não são incomuns. E se formos analisar muitos desses problemas não têm nenhuma relação com o Agile, e iriam acontecer independente da metodologia utilizada.

Problemas como equipe inexperiente, cliente distante, gestão de conhecimento ineficiente, falta de motivação, acomodação, etc são comuns em qualquer empresa. E a solução ou medidas que poderiam amenizar os seus efeitos não estão numa metodologia de desenvolvimento de software.

Por isso que eu enfatizo, que antes de implementar Agile, precisamos analisar o ambiente a nossa volta, assim como um agricultor verifica o terreno para saber o que pode plantar nele. Não adianta forçar ser Agile, o seu desenvolvedor não irá testar só porque agora é Agile, o seu cliente não irá participar mais e/ou aceitar o contrato de escopo negociável, só porque agora a sua empresa é Agile.

E é bom lembrar, que Agile não é um fim, e sim um meio para você construir software com mais eficiência e qualidade, ter uma equipe mais motivada e um cliente mais satisfeito.

É importante ter em mente, que Agile não é apenas uma questão de mudança de hábito, mas também cultural . Vários paradigmas precisam ser quebrados quando implementamos Agile, e alguns deles já foram quebrados por pessoas como o Ricardo Semler, muito antes do Manifesto Ágil surgir, como por exemplo: uma participação mais democrática da equipe no dia-a-dia e nas decisões da empresa e valorizar mais pessoas do que processo.

Podemos fazer uma implementação de Agile de forma mais harmoniosa e sensata, ao buscar saber o que realmente precisamos antes do Agile em sí, uma vez que muitos dos problemas que enfrentamos, não estão relacionados com a metodologia que está sendo usada. Lembre-se, que “para que a semente dê frutos, é necessário preparar a terra.”

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Fonte imagens:

http://bit.ly/aevP0r

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