Disciplina * Habilidade = Artesão

Ontem li um artigo muito interessante no site do Jurgen. O artigo traz várias visões que também compartilho e acho importante, para quem trabalha com desenvolvimento de software conhecê-las e tirar as suas próprias conclusões.

Resolvi pedir a autorização e traduzir na íntegra o artigo do Jurgen (thank you Jurgen!).

Segue abaixo, a tradução do artigo, espero que gostem. ;)

Tenho certeza de que você reconhece esse problema. Você está com pressa, e ignora a rotina de verificar, ao sair de casa, se todos os seus pertences estão com você. Meia hora depois você está dirigindo de volta para casa, rosnando e xingando porque você esqueceu sua carteira, e agora está ainda com mais pressa do que estava antes.

Creio que a disciplina é uma das duas essenciais dimensões de um artesão. Qual impressão você teria de um piloto que se esquece de verificar regularmente os motores do avião? Ou um cirurgião que às vezes não tem tempo para lavar as mãos? Ou um ator em pleno palco, que às vezes não sabe as suas falas? Como consumidor, ou paciente, você aceitaria a desculpa: “Desculpe, eu estava com pressa?”

A importância da disciplina em qualquer ofício é evidente. Gerald Weinberg escreveu sobre o Efeito Boomerang nas pessoas que não seguem procedimentos: uma parte da garantia de qualidade é, simplesmente ignorada, o que acaba formando o seguinte efeito dominó:

  1. Aumento do número de problemas no produto que está no mercado;
  2. Aumento do número de problemas reportados pelos clientes;
  3. Sobe o número de interrupções de emergência;
  4. A pressão de tempo na equipe de desenvolvimento aumenta;
  5. E por fim mais procedimentos começam a ser ignorados.

Nós todos sabemos por experiência própria, que no fim das contas, ignorar a disciplina faz você ir mais devagar, não mais rápido.

No mesmo sentido, Mary e Tom Poppendieck descrevem que uma equipe de desenvolvimento de software não pode ser rápida, sem se preocupar em colocar qualidade em seus produtos. Ignorar checklists e procedimentos  só faz parecer que você está indo mais rápido, no início. Mas muito em breve, a falta de qualidade no seu produto, vai fazer você ir mais lento.

Weinberg descreveu seis níveis de maturidade para os seguintes processos:

  1. Perdido: “Nós nem sequer sabemos que estamos realizando um processo”;
  2. Variável: “Nosso trabalho depende de que como estamos no sentindo naquele determinado momento”;
  3. Rotineiro: “Seguimos nossas rotinas (exceto quando entramos em pânico)”;
  4. Guiado: “Escolhemos dentre as nossas rotinas, aquelas que trazem melhores resultados”;
  5. Premeditado: “Estabelecemos rotinas baseado nas experiências vividas com elas”;
  6. Coerente: “Todos estão envolvidos na melhoria de tudo o tempo todo.”

Weinberg usou esses seis níveis para classificar as organizações, mas eu prefiro qualificar somente os indivíduos de acordo com as suas atividades específicas. Qualquer coisa que acontece com uma organização é resultado emergente da interação entre as pessoas, muitas delas tem diferentes níveis de disciplina para diferentes atividades. Às vezes sou elogiado pela minha disciplina na escrita de um livro, que pode ser de nível 5 (premeditado) ou mesmo nível 6 (coerente). Mas, ao mesmo tempo, se você ouvir alguém xingando e gritando, pode ser que seja eu voltando para pegar a minha carteira, uma atividade que, aparentemente, está ainda no nível 1 (perdido). (Ou poderia ser meu esposo. Surpreendentemente, enquanto eu estava reescrevendo este parágrafo, ele voltou para recuperar sua carteira, depois de ter deixado a casa dez minutos antes …)

Uma combinação similar dos seis níveis foi introduzida por Ross Pettit da ThoughtWorks, que nomeou seus níveis: Regressivo, Neutro, Colaborativo, Operacional, Adaptável e Inovador. O significado dos seis níveis de Pettit é um pouco diferente, mas, como Weinberg, ele parece estar indicando níveis de maturidade na seleção e aplicação de processos.

A segunda característica essencial do artesão é a habilidade. Um desenvolvedor de software habilidoso pode ainda se dar ao luxo de ser indisciplinado, já um desenvolvedor disciplinado não é necessariamente habilidoso. Sendo assim, parece-me que o nível de habilidade da pessoa é uma outra característica que podemos utilizar para classificar a maturidade.

Há duas abordagens similares para indicar o nível de habilidade dos artesãos e artesãs: O sistema de guilda, que decorre da Europa medieval, especifica três níveis para as pessoas que treinam uma arte particular: aprendiz, artesão e mestre artesão. Este sistema é praticamente o mesmo que a variante japonesa Shuhari que descreve os três estágios dos praticantes de uma arte marcial: Shu, Ha, e Ri.

Em ambos os sistemas, as pessoas classificadas no primeiro nível estão aprendendo técnicas fundamentais, já as classificadas no segundo nível focam nas exceções e reflexões, enquanto não é necessário pensar muito, e tudo isso vem naturalmente, para as pessoas que estão no terceiro nível.

Nesta figura você pode ver que eu sou melhor como motorista, do que como escritor. Já faz 20 anos que eu dirijo, enquanto só faz 2 anos que escrevo. Mas a minha disciplina diária, como escritor, é melhor.

Quando desenhamos as duas características, disciplina e habilidade, chegamos a um diagrama bem útil para os artesões. O diagrama retrata bem que a maturidade pode ser medida em duas direções.

A habilidade pode ser perdida, com o envelhecimento, lesões físicas, ou avanços tecnológicos, já a disciplina pode ser perdida através da desmotivação ou distrações. Artesões necessitam de ambas características, portanto, os gerentes precisam se preocupar com as duas.

Revisado por André Pantalião.

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P.S.: Obrigado ao Fernando Fontes, por ter compartilhado o artigo no Google Reader. :)

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Um comentário sobre “Disciplina * Habilidade = Artesão

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